Zé Paiva

Nascido em 29 de agosto de 1961, em Porto Alegre, José Luiz Martins (Zé) Paiva trocou a engenharia pela fotografia após uma longa viagem pela Europa e Norte da África,
em 1984. Iniciou-se no fotojornalismo na sucursal do jornal O Globo e trabalhou também no jornal Zero Hora, em Porto Alegre. Mudou-se então para Florianópolis, onde, desde
1985, dirige seu estúdio. Aprimorou seus estudos no International Center of Photography, em Nova Iorque. Ensinou fotografia no curso de Artes da Universidade do Estado de
Santa Catarina e na Fundação Universidade Regional de Blumenau. Realizou exposições nas principais cidades do Brasil e recebeu diversos prêmios, entre eles o Raulino Reitz,
da Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina, em 2002, e menções honrosas no International Photo Awards – Nova Iorque, em 2005 e 2006, e no Prix de la Photographie
– Paris, 2007. Em 2009 foi selecionado para a coleção Pirelli Masp de fotografia. Em 2010 foi finalista do prêmio Conrado Wessel na categoria ensaio. Teve fotos publicadas
em dezenas de livros, revistas e calendários, entre outros. Em 2004, lançou o livro Santa Catarina – Cores e Sentimentos, pela Editora Escrituras. Concebeu e coordenou o projeto Expedição Natureza Santa Catarina, que resultou no livro lançado em 2005 pela editora Letras Contemporâneas. Em 2008 lançou o segundo livro do mesmo projeto, Expedição Natureza Gaúcha, em parceria com a Editora Metalivros. Atualmente, administra seu banco de imagens, a Vista (www.vistaimagens.com.br), da aulas de fotografia de natureza na Escola Superior de Propaganda e Marketing em Porto Alegre e desenvolve o terceiro livro da série Expedição: A Natureza do Tocantins.

FotoRJ: Somos essencialmente uma lista de fotógrafos amadores com muitos deles a caminho da profissionalização. Fale um pouco da sua trajetória para se tornar um fotógrafo de natureza? O que aconselha quem quer começar hoje.

Zé Paiva: Eu comecei no fotojornalismo e na foto publicitária, o que foi uma escola pra mim. Foi difícil poder me dedicar a fotografia de natureza até porque o mercado desse tipo de fotografia é muito limitado. Comecei na fotografia de natureza com um projeto meu e sem muita experiência. Com o tempo fui ganhando a experiência necessária e foram aparecendo outros trabalhos. Difícil aconselhar quem quer começar hoje na fotografia de natureza. Por um lado o Brasil é um país que pela sua enorme biodiversidade tem uma quantidade muito grande de assuntos a serem fotografados. Por outro lado viabilizar uma produção nesta área é sempre um desafio, pois a gente tem que arrumar quem patrocine esse tipo de trabalho. As oportunidades de trabalho de encomenda e de venda de fotos de arquivo de natureza são muito restritos. Acho que uma bom começo seria trabalhar junto a instituições de pesquisa ou universidades, tentar conseguir uma bolsa de trabalho. Não aconselho começar por um projeto, pois isso requer mais experiência.

FotoRJ: Algum fotógrafo influenciou significativamente o seu trabalho?

Zé Paiva: Sim, vários. Num primeiro momento Ansel Adams e Edward Weston, quando trabalhei com câmeras 4×5 polegadas. Depois me inspirei muito no trabalho de Frans Lanting e Jim Brandenburg, que até hoje me influenciam.

FotoRJ: No Brasil, apesar de uma natureza pujante, profissionalmente a fotografia desse segmento não é tão valorizada. Como você vê isso?

Zé Paiva: Como disse acima, é um campo enorme a fotografia de natureza no Brasil mas as oportunidades não são tantas. Não existem muitas demandas deste tipo de fotografia por isso depende muito dos fotógrafos abrirem oportunidade neste mercado. Mesmo no mercado de imagens de arquivo, a demanda é muito maior por imagens turísticas do que de natureza.

FotoRJ: Você é um dos fotógrafos de natureza com projetos a longo prazo, inventários fotográficos de regiões, livros, exposições, professor, dono de uma agência de imagens, que ao mesmo tempo atende clientes diretos com imagens prontas ou com projetos específicos… Ou seja, atua em várias frentes de trabalho. Queria que você falasse um pouco desse mercado que ao mesmo tempo em que se torna quase uma exigência a especialização (no seu caso, natureza) força o fotógrafo a ser multiprofissional. Editor, curador, produtor cultural, professor, tratador de imagens, marketeiro…
Tudo isso com uma intensidade muito grande.

Zé Paiva: Isso é desgastante mas ao mesmo tempo acho interessante, pois te dá uma visão mais abrangente da fotografia. Mesmo na fotografia de natureza eu não me especializei em nenhuma área, faço um pouco de paisagem, fauna, macro, flora, etc. me considero mais um fotógrafo de expedição do que de natureza propriamente. Gosto de fazer retratos também quando viajo, das populações tradicionais que vivem neste lugares. O fato de ter que ser um pouco de tudo eu acho positivo também. Na verdade eu acredito numa visão renascentista do homem, o contrário da especialização. Talvez por isso faço um pouco de tudo que você falou, e com prazer.Até de escrever estou gostando cada vez mais.

FotoRJ:Por falar em Agência de Imagens, a Vista Imagens é uma mistura de agência e banco de imagens, um segmento muito criticado mas pouquíssimo conhecido no Brasil. Muita gente associa bancos de imagens a fotografia de $1 e a desvalorização da fotografia como produto. Gostaria que você comentasse um pouco sobre isso e esclarecesse o que realmente é esse segmento do mercado, quais são seus principais clientes (de um banco, não da Vista especificamente) e o conselho para quem quer entrar nele de forma correta.

Zé Paiva: Um banco de imagens é simplesmente uma forma de vender as imagens que estão prontas no seu arquivo. Eu não sei muito sobre esse mercado de micro pagamentos que você se referiu, mas a Vista só trabalha com direitos controlados (rights protected). Na Getty estou aprendendo que tem fotos que vale a pena vender como royalty free, quando é uma foto comum, que muitos vão ter uma imagem muito parecida, quase igual, na qual você não pôs a sua marca pessoal, vale a pena vender como royalty free em vez de deixa-la na gaveta. Os clientes são muito variados mas são principalmente editoras, em primeiro lugar, e agências de publicidade.

FotoRJ: Com pouco mais de duas décadas de carreira, obviamente você pegou a transição do filme para o digital. Perguntas clichês mas que não tem muito como fugir: como foi essa transição? O que mudou no seu trabalho? Atualmente seu trabalho é 100% digital?

Zé Paiva: Sim meu trabalho hoje e desde 2004 é 100% digital. Meu inicio foi justamente no projeto Expedição Natureza Santa Catarina. Fui meio que forçado a realizar o trabalho em digital por razões econômicas e gostei, mas com pouquíssima experiência, foi um grande aprendizado. O que mudou foi que se passa muito tempo na frente do computador, mas por outro lado o controle do resultado final na imagem é muito maior, o que eu acho que compensa.

FotoRJ: Seu projeto atual é sobre a natureza do Tocantins. Fale um pouco sobre ele. O que te levou a escolher essa região? Como anda o projeto?

Zé Paiva: O Tocantins foi escolhido para ser o terceiro estado do projeto Expedição Natureza porque em 2004 a Adriana Dias, que é consultora ambiental e escreve os textos dos meus livros, foi contratada pelo Ibama para fazer um projeto de um corredor ecológico chamado Araguaia-Bananal. Depois de algumas viagens, onde ela ficava praticamente só em reuniões, decidimos fazer uma viagem de férias para conhecer o estado (na época estávamos casados). Fomos logo depois do lançamento do livro de Santa Catarina, em julho de 2005. Na volta decidimos escrever o projeto. O Tocantins é o estado mais novo do Brasil, com 21 anos, e tem uma beleza natural muito peculiar, pois é uma transição entre a Amazônia, o Cerrado e a Caatinga, o que se chama de ecótono. Fiz a primeira viagem do projeto agora em julho para o norte do estado, passando pela Serra do Lageado, Serra da Cangalha, Monumento Natural de Árvores Fossilizadas, Reserva Extrativista do Extremo Norte (das quebradeiras de babaçú) terminando na Fazenda Água Fria, onde funciona um centro de reabilitação de animais silvestres. O livro deve ficar pronto lá pela metade do ano que vem.

FotoRJ: E aproveitando o gancho desse projeto, a fotografia de natureza é glamurizada como algo que “nasce pronto”. O fotógrafo é tido como um profissional que viaja para regiões belissímas, conhece locais agradáveis, e simplesmente a fotografia “acontece”. É o fotógrafo do por do sol. Pouca gente se dá conta de toda a transpiração que está por trás desse tipo de imagem, o desgaste do equipamento, a falta de controle sob o clima, as horas de caminhada… Queria que você comentasse um pouco sobre essa visão de parte do público e nos contasse alguns perrengues por trás das imagens.

Zé Paiva: Realmente é bem comum este tipo de visão das pessoas. Tenho muito amigos que me dizem: “Eu queria levar a vida que tu levas, só viaja…”. Poucos se dão conta de para cada viagem que faço tem anos de preparação, entre escrever um projeto, aprova-lo na lei de incentivo, captar um patrocínio, planejar, etc. Além disso, as viagens são viagens de trabalho e não de lazer, onde acordamos muito cedo para pegar a primeira luz do dia, e trabalhamos até a luz terminar, muitas vezes até mais, e a noite ainda tem a limpeza de equipamento, upload das fotos, backups, etc. É bem puxado, mas para quem gosta vale a pena. Muitas vezes se caminha o dia inteiro e não se consegue nenhuma imagem interessante. Mas é preciso estar sempre preparado. Louis Pasteur já dizia, “a sorte ajuda a mente bem preparada”, ou seja, no caso do fotógrafo, você tem que estar com a mente, a lente e a câmera preparados para quando aquele tucano pousar na sua frente. Acho que o maior perrengue que passei foi quando estava fazendo o livro Natureza Gaúcha. Meu assistente ficou doente em Cambará do Sul e voltou para Porto Alegre. Fui sozinho para São José dos Ausentes e assim que cheguei lá passei num caixa automático. Não é que na pressa de pegar o por-de-sol no Cânion Montenegro esqueci a mochila no banco? 11 dias de trabalho sem backup! Fiquei 3 dias na pequena cidade fazendo de tudo, anúncio na rádio, recompensa, mensagens nos alto-falantes da igreja, investigações policiais, até que apareceu o notebook. Um rapaz me ligou de Caxias do Sul dizendo que havia pegado a mochila no caixa mas que não era ladrão, estava arrependido e queria devolver.

Zé Paiva com a palavra: A maioria dos trabalhos sobre natureza exclui o homem. Ora, é impossível se falar em conservação sem incluir o homem, até porque a natureza intocada é um mito. Mesmo na Amazônia existe um manejo feitos por povos indígenas há milênios. Por outro lado é impossível conservar-se o que resta de natureza numa redoma. Existem estudos científicos que comprovam que uma área natural limitada e cercada por plantações por exemplo, vai diminuir drasticamente sua biodiversidade ao longo do tempo. Então a minha conclusão é de que o uso da terra e a forma com homem ocupa o planeta tem de ser incluídos em qualquer plano de conservação para não terminarmos com pequenas ilhas de natureza com a biodiversidade depauperada. Como o meu trabalho é essencialmente idealista e voltado para a conservação eu não tenho como deixar de fotografar as pessoas que vivem dentro ou próximo as áreas naturais que visito. Este é o conceito de fotografia de expedição, que acho que descreve melhor o que eu faço. Fotografo tudo que encontro numa expedição às áreas naturais de uma determinada região, inspirado nas antigas expedições dos naturalistas, como Langsdorff.

Para conhecer um pouco mais e acompanhar o trabalho do fotógrafo, acesse os links:

www.vistaimagens.com.br – banco de imagens
http://zepaiva.wordpress.com – blog do Zé Paiva
www.expedicaotocantins.wordpress.com – blog da Expedição Tocantins

7 Comentários em “Zé Paiva”

  1. Juca Filho says:

    Conheci o Zé Paiva no Facebook. Legal saber da trajetória e dos projetos dele melhor. É um belissimo fotógrafo. Visitarei seu site com calma. Parabéns ao pessoal que renovou o site do Foto RJ, tá demais.

  2. Zé Paiva says:

    Caro Flávio e colegas, grato pela oportunidade de falar sobre fotografia. Vida longa ao Foto RJ! abraços

  3. Uma bela entrevista de um grande fotógrafo.

    Valeu.

  4. Luiz Abreu says:

    Um expert de uma trajetória brilhante.

  5. Adriane Feijó says:

    Além de ótimo profissional o Zé é um ser humano especial. Parabéns pela entrevista. As perguntas foram tri legais.
    Abraços
    Adriane Feijó

  6. Zé Paiva… esse nome, a imagem que eu ja creie no meu imaginário. Tudo responsabilidade de Lino, que conheceu Zé Paiva, que falou pra mim… risos. É isso, tenho olhado com carinho o trabalho desse renomado profissinoal na arte da fotografia. Conheço um pouco da região retrada no seu projeto do Tocantins. Fico feliz de ver o belissimo resultado e desejo sempre muito trabalho, muito reconhecimento e por favor muito dinheiro.

    Sonho em um dia conseguir competência para fazer um registro fotográfico aqui da região sul maranhense, que possa retratar o dificil modo de vida das quebradeiras de coco babaçu.

    Abraços de Palmeira

    Vanusa Babaçu
    Aspirante a fotógrafa

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